As multiplicidades de um tempo sem ponteiros
Lá fora, ainda está escuro, e o silêncio da chegada sorrateira dos primeiros raios solares descobre um dos últimos resquícios da noite anterior.
Coloco o pão francês amanhecido sobre a frigideira quente com a coordenação motora ainda reduzida pelo despertar. Em uma dimensão diferente do meu corpo, a mente já começa a pensar na mochila das crianças, nos ingredientes para o almoço, nos clientes marcados para o dia... cada vez mais longe.
A sensação de uma leve dor de queimadura puxa meus pensamentos para a cozinha: o descuido ao pressionar o pão provocou o colapso do físico com o psíquico. Coincidentemente mais acordado.
Tudo pronto! E embora na mesma mesa, meu filho parece estar em outro mundo. Ainda vestido de pijama de dinossauro, come o pão aos poucos, pega o carrinho e faz careta para o irmão mais novo.
Ao mover o pulso para pegar a xícara, o relógio digital acende a tela e me conta que os meus minutos como responsável são diferentes da soma dos segundos de uma criança. A bebida desce esquentando a garganta, a inquietude no estômago acordou.
O marchar consistente do Sol na janela da cozinha me convoca a vestir minhas roupas para o trabalho. Com a cabeça organizando prazos e clientes, o sapato parece ter algo estranho, mas nada perigoso, fora apenas a garagem de um carrinho azul no dia anterior.
A roupa está alinhada, mas cada vez que preciso abrir ou fechar a mão esquerda, há uma farpa inconsciente, irritando-me com o atrito da cadência dos minutos ligeiros. Então me pego pensando: como pode um pequeno machucado interferir no meu humor?
Tentei organizar meu dia, mas a frigideira me deu a dor como um lembrete de que quando a noite voltar o carrinho azul precisará de uma garagem e de que há um dinossauro faminto me esperando para espantar os prazos e as listas diárias.
Talvez os acontecimentos cadenciem o tempo, mas a singularidade da vida nunca coube neles.
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