Crônicas de um relógio parado II

Fotografia dramática e nostálgica em close-up de um relógio de parede antigo de madeira escura envernizada, parado no horário 10:13, pendurado em um corredor em penumbra
Feito de madeira com verniz escurecido, o relógio está parado, os ponteiros prateados sinalizam o número 10 com as horas e um pouquinho depois do 2 está a marcação dos minutos. Destacados por um fundo preto, parecem anunciar a vinda de algo.

Estava pensando há quanto tempo estava travado naquele momento. Comecei com cálculos matemáticos da vida: minha mãe se mudou para aquela casa há mais ou menos 15 anos, e o relógio funcionava.

Comecei a me lembrar que há década e meia eu tinha outra profissão, os cabelos brancos apontavam um aqui e outro lá e ficar sem dormir e ir a local de som alto era sinônimo de diversão. 

Mas isso não importava agora, queria descobrir a quanto tempo o relógio estava parado. Puxei outro marco da minha vida: começar o meu relacionamento com minha esposa, na época namorada. Foi há 10 anos.

Lembrei que era um domingo, minha namorada levou uma torta holandesa para impressionar a minha mãe boleira (que faz bolo não que joga bola). Quem latia no portão avisando quem chegava era a Kika, hoje é o Madruguinha.

Se o relógio funcionava àquele tempo, não sei, tentar lembrar do corredor é como acessar um túnel que só se vê ao longe, mas não se distingue muita coisa, só um relógio em uma penumbra.

Talvez se eu chegasse um pouco mais perto do tempo presente, eu conseguiria decifrar esse mistério, e entre esse pensamento e mais um olhar para o relógio, notei de relance uma pequena mancha na parede do corredor.

Era um borrão marrom escuro, situado na parede do lado direito, na altura entre 50cm a 70cm do chão. Essa eu sabia, era a marca da mão suja do meu filho mais velho. Hoje ele tem pouco mais de 3 anos, e me lembrei que o relógio já não funcionava quando ele nasceu.

Escuto um resmungar e um brinquedo caindo. Minha investigação é interrompida pelas crianças. Agora são duas que me ajudam a descobrir novos fios brancos a cada ida ao barbeiro e a escolher os lugares menos barulhentos e abertos durante o dia para brincarmos.

Dei mais uma olhada para o relógio paralisado e senti um orgulho silencioso. Passei a me questionar se o tempo não mudou nem o relógio então será que ele realmente muda alguma coisa?... Talvez ele só realce os ponteiros da direção que tomamos.

Aproveite e leia também o outro texto desta coleção clicando no link aqui “Crônicas de um relógio parado I”.

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