Não é o prazo, mas o peso que tensiona a sacola

Crônica sobre o peso das escolhas, filosofia do cotidiano no mercado, urgência e prioridades

Estava no mercado na terça-feira às 16h47. Não tinha comido nada durante toda a tarde e buscaria meus filhos na escola em 10 minutos. A lista de compras tinha frutas, macarrão, leite, pão e queijo, mas a fome apontava para o enroladinho de salsicha e esfirra a cinco pessoas de distância na fila da padaria. Estava encurralado pela prioridade e urgência.

Os milhares de anos de evolução biológica acumulados e o progresso social e moral humano discutiam entre si sobre o tema: prole x sobrevivência. Era como estar sentado diante do meu instinto e de meus conceitos civilizatórios a me perguntarem: “e aí, o que vai ser?”.

Como a tatear um ambiente escuro procurando o interruptor, buscava parâmetros para definir prioridade e urgência. Se de um lado a responsabilidade de pai sugeria dar menos atenção à fome, esta aliava-se à irritabilidade do sistema biológico para se contrapor.

Talvez fosse uma crise de valores: compromisso x satisfação pessoal. Mas poderia ser uma tensão delimitada no tempo: devorar o enroladinho agora ou esperar um pouco e me alimentar no horário do jantar mesmo.

Em todo caso, a vida exige posicionamento, a extensa cadeia causal da concepção à morte é formada por elos ora comissivos e ora omissivos. A inexistência de uma não decisão é um mito irmão da culpa, a confabularem sorrateiramente pelos meandros da inconsciência.

Refleti e parecia que no dia a dia havia mais decisões no curto prazo demandando atenção naquele momento exato em vez de escolhas feitas visando um longo prazo. O critério temporal parecia pender para o lado da urgência.

Mas a vida argumentava comigo que presente e passagem de tempo representariam dimensões diferentes. Eu poderia devorar o enroladinho em minutos, mas me lembrar da sensação do gosto do cheddar e da massa quentinhos perduraria após vários dias.

Isso me fazia refletir se as urgências realmente eram originais ou situações nas quais as circunstâncias as revestiam com a roupagem da atenção imediata. Esperar mais duas horas até o jantar não iria me causar nenhum dano, quem dirá me matar.

Foi aí que notei a prioridade lá no caixa do mercado, observando-me, inclinando ligeiramente a cabeça num esforço para ouvir meus pensamentos ao longe. 

Comecei a checar o que já tinha comprado e o prazo de validade de um dos itens capturou a minha atenção: vencia em dois dias. Era como se a conjuntura criasse uma sincronicidade com a minha gestão de crise. 

Segundo a regra de segurança alimentar eu deveria consumir o produto muito rápido, porém segundo parâmetros nutricionais talvez não fosse a melhor opção acabar com aquele alimento em dois dias.

Voltei à prateleira e escolhi um item com validade bem mais à frente. Isso era como abrir um gráfico dimensional, esticando o eixo dos prazos e dos valores nutricionais, modificando a forma com a qual me relacionaria com aquela escolha.

Por um momento quase me esqueci do meu dilema, mas estava no caixa, ensacando as minhas escolhas e distribuindo os valores para equilibrar o peso das decisões mais pesadas diante do caminho de volta à minha intimidade.



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