A melodia do cuidado


Pela janela aberta da cozinha os tons alaranjados do sol poente projetam a sombra de um pássaro pousado no beiral. Seu piado ritmado e os movimentos rápidos da cabeça buscam encontrar o melhor ângulo para investigar o ambiente.

Ao me ver, dá um curto salto para o lado oposto à minha direção como se estivesse tomando distância, e voa para a árvore em frente. De lá observa, mas sem fazer barulho, as folhagens disfarçam sua silhueta, que fica aparente somente quando sobe um pouco mais alto no mesmo galho.

No dia seguinte, ao lavar a louça sinto alguém me observando: é o pássaro de ontem. Camuflando suas penas acinzentadas com as folhas assombreadas do pé de limão, finjo que sua identidade está anônima.

Saio e coloco um pedaço de banana a uns três metros da árvore, num pequeno pote baixo. Está numa distância suficiente para aguçar a curiosidade dele, e fora do alcance de invadir sua privacidade.

Algumas bicadas na fruta e levanta voo. Como se estivesse a confirmar se era uma armadilha, volta a se disfarçar por entre os ramos do limoeiro por alguns instantes e retorna para arrancar mais alguns pequenos pedaços. 

Por alguns dias seguidos faço a mesma oferta de comida: as vezes um pedaço de mamão em outras melancia e até banana novamente. Na maioria das vezes ele aparece e agora já não utiliza mais a árvore como esconderijo.

Ele vem, come e não esboça qualquer iniciativa de voar, mesmo que eu esteja sentado a menos de dois metros de distância. Não sei se é confiança ou se não se importa com a minha presença.

Um desses dias, sentiu-se tão à vontade que começou a cantar. A melodia era rápida, animada e ia aumentando de volume e intensidade. O piado seco ecoante deu lugar a uma canção empolgante.

Percebi que se tratava do sanhaço, a proximidade me dava a oportunidade de notar as sutilezas de suas penas, as cores mais escuras nas asas, a cabeça e peito mesclavam o azul claro e o cinza. A partir dali, tornou-se completamente distinguível, mesmo entre as folhas.

Suas visitas ficaram mais raras, lembro-me que a banana foi a primeira, mas nos dias de calor a melancia era a preferida. Pode ser coisa da minha cabeça, mas o balanço das folhas com o toque da brisa quente da tarde me faz ouvir a melodia do primeiro canto.


  

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