Vida em temporada: o fim dos ciclos na era das séries


O fenômeno de maratonar séries já se tornou parte da cultura brasileira, e dedicar horas seguidas para descobrir que o fim da temporada não significa o desfecho da história é muito comum.

No entanto, a questão não está na quantidade de horas gastas, mas em como essa dinâmica começa a mudar nossa própria percepção da naturalidade do mundo. Enquanto a natureza opera por ciclos, nós vivemos por temporadas.

Parece estranho, mas todo ano no Brasil temos períodos de chuva, um ciclo natural. E por conta disso e outros fatores há surto de dengue, por óbvio quando é mais chuvoso. Olhamos para hospitais lotados e estatísticas e dizemos: “começou a dengue esse ano”.

Tratamos a dengue como se fosse um episódio do seriado Chaves. Nós já vimos aquela história, sabemos os atos de cor, damos risada mesmo assim, e assistimos novamente quando é reprisado.

Talvez a diferença entre um ciclo e uma temporada seja, no fundo, uma questão de visão sistêmica. Enquanto o primeiro se insere numa rede de inter-relacionamentos – integrados e interdependentes -, o segundo é visto de modo apartado, pontual. No ciclo você participa, na temporada, apenas assiste.

Ora, entender algo periódico dá a possibilidade de interferência naquela situação, não de apenas ser surpreendido pelo que está acontecendo. A posição de quem observa muda totalmente.

As mídias como streamings e redes sociais trouxeram as possibilidades de socialização baseados em eventos específicos, determinados e temporais. Maratonar série e viralizar conteúdo são fenômenos com essas características.

Adotando comportamentos baseadas nessas premissas, a sociedade vai moldando regras coercitivas externas ao indivíduo, afinal como é possível alguém não ter assistido à nova temporada de uma determinada série de sucesso?
O eu natural, quem sou, vai dando lugar para a pessoa projetada fora do indivíduo. A questão não é o aprendizado de regras sociais em comunidade, mas sim o conteúdo dessas normas de convívio.

Hoje já não se observam mais as nuvens e o Sol a esconder no horizonte porque a cortina está fechada para não se saber mais se está de dia ou de noite.


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