Existência editada

Pintura a óleo de uma silhueta humana orgânica sendo sobreposta e apagada por uma grade geométrica e códigos de computador, representando a formatação do indivíduo pelo sistema

Minha vida teve certificado,
Foi oficialmente comunicado.

Fui um bebê que inspirava cuidado,
Uma existência havia começado.

A família foi meu primeiro mundo,
Não me lembro, mas ressoa profundo.

Caçar insetos junto com irmão,
São tempos que nunca mais voltarão.

Na escola, os olhares, o julgamento,
Meu nome escrito no quadro cinzento.

Desta época não tenho documento, 
Mas os reflexos que ainda sustento.

Era ensinado a me preocupar,
Na época de prestar vestibular.

Pontos eram a meta no simulado,
Marcar tudo dentro do circulado.

Desejava futuro promissor
Mas achei padrões para me compor

O sistema tentou me formatar,
Aos poucos deixei de ser singular.

Já não me via como uma pessoa,
Eu apenas seguia o fluxo à toa.

O trabalho buscava resultado,
Às custas de um eu fragmentado.

O curioso menino com talento,
Estava num retrato poeirento.

O homem presente foi capturado,
Pelo modus operandi cansado.

O passado não tem mais valor,
Não há singularidade a dispor.

Sua vida é apenas uma versão,
Transformada numa opinião.
 

Comentários