Ponto do caos
Era por volta das 17h46, o horizonte cortava o Sol pela metade, e as sombras das árvores esticavam os galhos, abraçando a noite, enquanto o silêncio externo contrastava com a movimentação na cozinha.
Na mesa os ingredientes estavam organizados sistematicamente: arroz de risoto, queijo provolone ralado, carne de panela desfiada, raspas e suco de limão galego, manteiga e os temperos para o caldo.
A panela de fundo grosso fritava o arroz quando, como se fosse um furacão, o filho de 3 anos entrou na cozinha correndo, grudou nas pernas do pai:
- Papai, tô com fome, é arroz?
Equilibrando-se e afastando a criança do fogo quente, adicionou paciência, ingrediente que não estava na mesa.
- É risoto, filho, com a carninha que você gosta.
Com o mesmo ímpeto que entrou, também saiu, como se fosse atender uma emergência na sala ao lado. Ele estava ligado nos 220 volts, enquanto o pai, já com o olhar em meia fase, parecia carregar um dia de trinta horas.
A frieza da carne entrou em choque com a panela quente, subindo um vapor que preencheu a cozinha com o cheiro de cebola e tomate refogado. Aquele sabor em forma gasosa foi buscar a mulher, que até então estava quieta.
- Falta muito?
Mais um pouco de paciência foi adicionado ao cozimento. O planejamento rígido evaporava assim como o caldo despejado na panela, e mexendo de maneira mais rápida a mistura o pai disse: - Ainda vai um tempo!
À medida que a carne ia se misturando com o arroz e os temperos, o aroma daquele quase prato se intensifica e como a prever os minutos finais de preparo a família começou a se arrumar na cozinha.
O menino escalou a cadeira e se apoia nos joelhos, encara o pai, olhos fixos na panela, enquanto a mãe ajeita o outro menino de 10 meses na cadeira de bebê.
O caldo secava na panela, e a mesa toda povoada já não tem mais lugar para os ingredientes. A manteiga e o queijo provolone foram colocados ao lado do fogão, quebrando a sistematização do cozinheiro.
O pai apertou os olhos deu um breve e forte expiração, e notou que tinha esquecido de adicionar as raspas e o suco do limão. Com um sorriso irônico, adicionou o limão.
A acidez do limão deu homogeneidade à mistura ao mesmo tempo que exalava o perfume da comida quase pronta.
Pratos já estavam na mesa, e as crianças inquietas se mexiam de um lado para o outro, puxando os talheres e desarrumando e as combinações entre os garfos, facas e colheres.
O pai adicionou o queijo e a manteiga, mexendo de maneira mais vigorosa. O risoto de carne de panela ganhou um brilho e uma densidade cremosa, o caldo foi totalmente incorporado.
A família acompanhou atenta a transferência da panela para o centro da mesa, o menino mais velho já segurava a colher, o mais novo tentou puxar o prato de plástico, enquanto a mãe intermediava para que nenhum dos dois tocasse na panela quente.
Estava servido o jantar, a inquietação do preparo sucumbiu ao silêncio contemplativo, somente eram ouvidos breves toques do metal dos talheres nos pratos de vidro, a panela se esvaziou na mesma medida que os sorrisos surgiram.
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