A vespa, o ego e o sofrimento milimétrico


Era um início de noite de uma terça feira quente. Na garagem, as crianças brincavam. Tudo transcorria na normalidade, até eu passar a mão esquerda pelo meu pescoço e sentir uma ferroada. 

Uma vespa acertou o meu mindinho e no reflexo a joguei no chão. Assim como os pequenos obstáculos do dia a dia, o ferrão não parecia ter me ofendido muito. Retirei-o, passei pomada e noite que segue.

Mas o dedo começou a esquentar e a ficar com a sensação de formigamento, parecia que minhas mãos tinham apenas aquele dedo, os outros nove nem se manifestavam. Aquele único membro pulsava como a fazer birra para que fosse notado.

No dia seguinte, inchado e vermelho comparava-se em tamanho com o dedo anelar, acho que a ferroada na verdade atingiu o ego daquele membro de tão cheio de si que estava, porém na verdade era apenas uma reação alérgica.

A questão que vinha é como algo tão pequeno causou uma resposta tão incômoda para mim. O simples segurar de um copo com a mão esquerda me trazia um pouco de dor e desconforto que geravam uma revolta silenciosa que ainda não sabia, mas estava ocorrendo.

O dedo ferroado atraía a atenção dos infortúnios diários, fechar a gaveta sem beliscar era quase uma operação cirúrgica, mas quando acontecia não era a dor física transparecendo, e sim a revolta dizendo: como pode algo desse tamanho me irritar a tal ponto?

Estava quase que começando a ficar preocupado com a reação alérgica, talvez meu psicológico irritadiço tenha aumentado a dimensão da dor física, ou fosse apenas a falta de eficácia da pomada utilizada, que estava com a validade vencida.

Mas aquela revolta tinha um misto de humilhação com ironia de leis naturais: eu com todo o aparato biológico de milhares de anos de evolução do sistema nervoso, derrotado por uma defesa milimétrica.

No quarto dia, o dedo já estava quase se articulando em toda a sua maestria novamente, mas ao passar pela garagem, já não havia resquícios da vespa, talvez tenha sido levada pelo vento ou um sapo a tenha comido. 

Acontece que minha complexidade intelectual, conhecimento e capacidade de expressão quase nada valiam para explicar a vivência real ou que eu considerei real, - pois suspeito que, para quem olhasse de fora, apenas elevei o fato para o nível dramático. (Por favor, não perguntem isso para minha esposa).

Mas acho que a vespa, se pudesse dizer, diria que morreu como herói, afinal seu sacrifício ecoou na minha memória por 3 dias. Eu prefiro pensar que sou um sobrevivente... ou seria mais dramalhão?



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