A era das entidades: o tempo da despersonificação humana
Você está procurando emprego e na entrevista para a vaga é informado de que “não tem o perfil que o mercado procura”.
Então, abre o navegador do celular procurando outras oportunidades e se depara com uma notícia afirmando: “Governo promete que desemprego vai cair no próximo ano”.
Na volta para casa, no ônibus, acaba ouvindo um trecho da conversa das duas pessoas do banco da frente e fisga a frase: “Deus sabe o que faz”.
Notou alguma coisa em comum entre as 3 situações? Todas elas são embasadas em posicionamentos tidos como de algo/alguém cuja existência parece ser independente de pessoas e possui vontade própria. É o que iremos chamar de entidades.
Fora do controle
O mercado de trabalho, por exemplo, de maneira simplificada, é composto pelos trabalhadores, empregadores e governo.
Esses elementos atuam de forma complexa, dinâmica e interdependente, e suas interações geram valores de salários, disponibilidade de mão de obra, necessidades de qualificação etc.
Porém, embora seja um complexo de relações, este ainda é composto por seres humanos, que tomam decisões, criam leis, estudam, trabalham, produzem inovação e, principalmente, atuam no mercado de trabalho.
No entanto, o que se vê é um processo de agregar todas essas características transformando esse intrincado mecanismo social em uma entidade independente de traços humanos.
Aqui temos a primeira característica marcante da entidade: a independência do homem.
Autonomia transferida
Da mesma forma que acontece no mercado, também no campo da política, é comum pensar no governo, parlamento ou outro órgão do poder como se fosse algo com vontade inata própria.
Vamos ao exemplo. A promessa de diminuir o desemprego pode depender de muitos fatos, como um aumento da produção e a consequente maior demanda por mão de obra.
O índice de desemprego também pode cair, caso a metodologia para o cálculo mude os parâmetros de quem se considera desempregado.
Esses são apenas alguns fatores, mas veja que independente da circunstância há elementos caracterizadores da atuação humana, como tomar decisões de investir na produção ou criar método estatístico.
Logo, não é uma unicidade com personalidade distinta que faz algo, mas sim todo um sistema interdependente de influências geradas por seres humanos.
Portanto, existe uma estrutura de pensamento na coletividade humana - seja qual for o intuito – que cria um ente ficcional ao instituir vontade e independência um conjunto de fatos, valores e relações afins.
Eis aqui a segunda característica: vontade própria.
Indiscutível
Para complementar os atributos das entidades, vamos ao terceiro aspecto: a autoridade. Para compreender mais facilmente usaremos Deus como metáfora.
Não importa se você acredita ou não, muito menos a sua religião, o foco é notar que na história a figura da divindade sempre esteve envolta por algum tipo de autoridade.
Esse poder muitas vezes traz de maneira implícita a ideia de inquestionabilidade, de aceitação dogmática daquilo emanado por esse comando.
Na criação das entidades, a autoridade, junto com a independência e vontade própria, constroem uma personalidade que, curiosamente, é uma despersonificação dos atributos humanos.
Essa despersonificação se dá a partir da diluição da responsabilidade individual nos traços do novo ente criado - é como olhar para o mar e tomá-lo como imensurável, quando na verdade é composto pela junção de minúsculas gotas de água.
Portanto, uma justificativa vinda dessas entidades transparece na coletividade como impessoal, independente e inquestionável, quando na realidade tem sua raiz na ação humana.
Para fechar, quero deixar uma frase de um amigo chamado João que usa a nossa relação com Deus no sentido de nos chamar a responsabilidade própria: “Você tem fé que Deus vai te ajudar, mas ele tem fé de que você vai fazer alguma coisa, e a fé dele é maior que a sua.”
O mercado de trabalho, por exemplo, de maneira simplificada, é composto pelos trabalhadores, empregadores e governo.
Esses elementos atuam de forma complexa, dinâmica e interdependente, e suas interações geram valores de salários, disponibilidade de mão de obra, necessidades de qualificação etc.
Porém, embora seja um complexo de relações, este ainda é composto por seres humanos, que tomam decisões, criam leis, estudam, trabalham, produzem inovação e, principalmente, atuam no mercado de trabalho.
No entanto, o que se vê é um processo de agregar todas essas características transformando esse intrincado mecanismo social em uma entidade independente de traços humanos.
Aqui temos a primeira característica marcante da entidade: a independência do homem.
Autonomia transferida
Da mesma forma que acontece no mercado, também no campo da política, é comum pensar no governo, parlamento ou outro órgão do poder como se fosse algo com vontade inata própria.
Vamos ao exemplo. A promessa de diminuir o desemprego pode depender de muitos fatos, como um aumento da produção e a consequente maior demanda por mão de obra.
O índice de desemprego também pode cair, caso a metodologia para o cálculo mude os parâmetros de quem se considera desempregado.
Esses são apenas alguns fatores, mas veja que independente da circunstância há elementos caracterizadores da atuação humana, como tomar decisões de investir na produção ou criar método estatístico.
Logo, não é uma unicidade com personalidade distinta que faz algo, mas sim todo um sistema interdependente de influências geradas por seres humanos.
Portanto, existe uma estrutura de pensamento na coletividade humana - seja qual for o intuito – que cria um ente ficcional ao instituir vontade e independência um conjunto de fatos, valores e relações afins.
Eis aqui a segunda característica: vontade própria.
Indiscutível
Para complementar os atributos das entidades, vamos ao terceiro aspecto: a autoridade. Para compreender mais facilmente usaremos Deus como metáfora.
Não importa se você acredita ou não, muito menos a sua religião, o foco é notar que na história a figura da divindade sempre esteve envolta por algum tipo de autoridade.
Esse poder muitas vezes traz de maneira implícita a ideia de inquestionabilidade, de aceitação dogmática daquilo emanado por esse comando.
Na criação das entidades, a autoridade, junto com a independência e vontade própria, constroem uma personalidade que, curiosamente, é uma despersonificação dos atributos humanos.
Essa despersonificação se dá a partir da diluição da responsabilidade individual nos traços do novo ente criado - é como olhar para o mar e tomá-lo como imensurável, quando na verdade é composto pela junção de minúsculas gotas de água.
Portanto, uma justificativa vinda dessas entidades transparece na coletividade como impessoal, independente e inquestionável, quando na realidade tem sua raiz na ação humana.
Para fechar, quero deixar uma frase de um amigo chamado João que usa a nossa relação com Deus no sentido de nos chamar a responsabilidade própria: “Você tem fé que Deus vai te ajudar, mas ele tem fé de que você vai fazer alguma coisa, e a fé dele é maior que a sua.”
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