O fato e os meus fatos


Este post será uma confissão: senti vergonha ao ler um livro, não pelo conteúdo da obra, mas porque seu conhecimento implodiu meu intelectualismo.

“A Arte de viver: Encheirídion”, de Epiteto, editora Camelot, publicação em 31 junho de 2022, ebook kindle. São 57 páginas de enorme produndidade.

“O que fere não é a situação em si, mas a visão que temos dela”. Este é um dos vários pensamentos e reflexões, e está no capítulo 16.

Para chegar a genialidade desta construção vamos decompor a frase, analisar em partes e traçar suas relações. A primeira dela é que existe uma situação e uma visão sobre aquela.

Vamos a um exemplo do cotidiano. Você está conversando com uma pessoa por meio do WhatsApp, e em determinado momento ela não o responde instantaneamente.

Pronto, temos a nossa situação. Agora vamos aplicar o pensamento da obra.

 

A situação

A conversa é um acontecimento envolvendo a interação entre duas pessoas por meio de um sistema de troca de mensagens, que utiliza a internet como forma de transmitir o conteúdo.

Tal descrição nada mais é do que os fatos objetivamente observáveis. Digitar um texto ou enviar uma imagem não depende da minha subjetividade, se ele foi colocado no aplicativo e enviado é possível averiguar a sua existência.

No entanto, a maneira como irei tratar isso é subjetiva, pois embora o conteúdo seja visível de forma concreta este traz a expressividade daquele que escreve. Prova disso é a quantidade de interações por meio de emojis e gifts.

 

A visão

Até aqui tudo bem? Então agora ao passo seguinte a situação, a pessoa parou de responder as mensagens.

A situação é simples: acabou a internet, o celular ficou sem bateria, ou a pessoa teve que realizar algo que a impossibilitou de acessar a conversa ou o aplicativo, como caiu no sono, por exemplo.

Enfim, são várias as possibilidades para a interrupção da conversa, porém a interpretação dada pelo outro pode trazer outro sentido.

Imagine que eles estavam brigando. A falta de resposta pode ser vista que “deixou ele falando sozinho”.

Em outro caso, se a pessoa estava desabafando, poderia interpretar que o outro “não estava levando a sério” e resolveu “fazer cara de paisagem”.

Logo, se a visão de determinada situação não tem necessariamente a correspondência com a situação de fato não é o acontecimento em si que causa a perturbação em nosso ânimo, mas o modo como o vemos e interpretamos.

Perceba que existe o acontecimento real e aquilo que minha interpretação afirma ter acontecido.

 

Seletividade

Esse conhecimento é aplicável a diferentes atos do nosso dia a dia, tente lembrar de momentos em que imaginava ser uma coisa, mas na realidade acabou descobrindo ser outra.

A principal consequência entre a realidade e a interpretação dela é a forma como agimos ou reagimos àqueles fatos, sabe a frase “tempestade em copo dágua”? Pois bem, agora ela faz muito sentido.

E foi a partir dessa reflexão que fiquei envergonhado, não por cometer erros, mas por perceber que algo estava diante dos meus olhos o tempo todo, mesmo assim eu tinha uma cegueira seletiva.

Eu enxergava aquilo que queria, formatando o mundo a partir de uma visão que não correspondia com a realidade, criando uma ilusão de controle sobre muitos aspectos incontroláveis.

Porém, não se trata de eliminar a interpretação, mas sim de aprender a integrar nossas experiências com os fatos, pois “o que fere não é a situação em si, mas a forma como a vemos”.

 

 

 

 

 

 

 

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