As cores e os caminhos


Um pintor famoso enfrentava uma crise de falta de criatividade. Imaginava já ter pintado tudo o que poderia, ele não via mais novidade nas formas do mundo.

Andava de um local a outro com uma tela e seu estojo de pintura, sempre em busca de objetos, situações, coisas ou pessoas que desafiassem seus sentidos.

Vez ou outra pensava ter encontrado algo digno de sua atenção. Sentava e se colocava a esboçar algo, mas logo se desanimava, limpando o rascunho da tela, muitas vezes com as próprias roupas.

Passados alguns meses suas obras se resumiam a desenhos com coloração pálida, nem coloridos, nem contrastantes. Começou a acreditar que estaria perdendo suas habilidades artísticas.

Sentia-se perdido ao comparar-se com outros pintores, que produziam quadros e painéis enquanto ele permanecia preso a tela já manchada de tanto desenhar e apagar.

A angústia aumentava à medida que o tempo ia secando os tubos de tinta abertos e não usados, era como se sua capacidade e vocação também estivessem perdendo as cores antes tão vivas.

Precisando sobreviver, resolveu que sua arte iria pagar as contas.

Decidiu não criar nada novo, copiaria a natureza para vender como se fosse um artigo para enfeitar, seu objetivo era de pelo menos oferecer um pouco da beleza já presente da vida.

Sua ideia deu certo, um comerciante encomendou um painel cuja pintura deveria representar uma paisagem rural para usar ao fundo de seu restaurante, cuja temática era baseada em comidas da roça.

Para realizar o trabalho, decidiu passar três dias em uma fazenda observando para realizar o esboço do painel.

No primeiro dia, resolveu sair cedo, logo ao nascer do sol, para analisar a paleta de cores presentes com os primeiros raios de luz. O orvalho deixava a grama como coberta de cristais. Observou e anotou.

Na manhã seguinte estava curioso para observar a paisagem no ponto máximo da incidência solar. Ficou até por volta das 13h30 e percebeu: “as sombras e a sua projeção estão muito diferentes da manhã anterior”. Registrou tudo.

Na última data seu objetivo era estudar a influência do por do sol, e qual das três situações seria a que mais beleza traria a sua pintura. Queria aproveitar o frescor do fim do dia para refazer suas energias.

À medida que o astro ia se escondendo no horizonte, proporcionando um degradê do amarelo ao alaranjado contrastando com o aparecimento de sombras, o pintor não tinha como escolher uma paisagem mais bonita, pois todas eram perfeitas.

- Nossa, a beleza existe em sua forma própria, mas eu só a percebo conforme acompanho os seus indícios clareados pelo Sol!.

Como se houvesse recebido um raio no pensamento, lembrou de seu bloqueio criativo e sua mente clareou: “a vida é como o Sol, e nós somos a paisagem pronta para manifestar seus contornos e sua riqueza de cores e texturas”.

 

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