Quem não solta os cachorros, não caça encrencas


Tiago morava no bairro Morro Verde, local tranquilo. A maior movimentação acontecia quando as pessoas saíam de casa para seus afazeres rotineiros ou ao voltarem no final da tarde.

Em uma das casas morava João, um pouco desleixado no cuidado com a casa e sem muita preocupação com o que acontecia na vizinhança. Ele tinha um cachorro, Furacão, um vira-latas de porte médio com pelagem entre o marrom e caramelo, nariz preto e focinho branco.

Ao sair pela manhã, João abria o portão de deixava o Furacão ir para rua. O dia do Furacão era agitado: rasgar sacos de lixo, deixar armadilhas para os distraídos nas calçadas e apostar corrida com ciclistas e motoqueiros.

– Ele rasgou todo o saco de lixo que coloquei na rua para o lixeiro pegar. Tive que varrer toda a calçada – reclamava Ana para a vizinha.

- Ah, ele quase derrubou o meu filho da bicicleta ontem quando ele saiu para a escola – comentava Carlos com a caixa do mercadinho ao pagar o pão.

O vizinho do lado esquerdo, Tiago, costumava caminhar logo pela manhã para aproveitar o tempo fresco, sempre às terças e quintas. Uma certa quinta se encontrou com Carlos e perguntou:

- Toda vez que saio para caminhar tem cocô do Furacão na minha calçada. Hoje estava distraído e acabei pisando, escorreguei e quase cai. Ele faz isso na sua calçada também?

Carlos fez que sim com a cabeça e ressaltou: – Estou de saco cheio da perturbação que ele causa.

Aos dois, também se juntou Ana, que pela segunda vez na semana catava os restos de lixo do saco rasgado. – Eu já reclamei várias vezes para o João, mas ele sempre diz “é só um cachorro, não sabe o que faz”.

- Tudo bem que é só um animal, mas já vem causando problemas na vizinhança há um tempo– falou Carlos

Os três estavam prontos para procurar João e exigir que fizesse alguma coisa quando este apareceu e vendo o pessoal reunido perguntou: - aconteceu alguma coisa por aqui?

- Aconteceu sim – disse Ana – seu cachorro fica o dia todo aprontando, se não está rasgando o meu lixo, está correndo atrás filho do Carlos ou sujando a calçada do Tiago.

Fazendo cara de desentendido, João deu de ombros, sorriu e disse – Ah, mas ele é só um cachorro, não sabe o que faz, vocês precisam ter paciência.

Aquelas palavras só fizeram com que seus vizinhos ficassem com mais raiva, porém Tiago teve uma ideia e encerrou a conversa dizendo – Tudo bem, é só um cachorro, nós humanos é que devemos cuidar das sujeiras dele.

No dia seguinte, Tiago reuniu Carlos e Ana e propôs: - Já que o cachorro não pode ser responsabilizado por ser um animal, que tal se cada presente que o Furacão deixasse, cada saco de lixo espalhado, voltasse embrulhado para o João?

Nos dias seguintes, Tiago e Ana juntaram toda a bagunça que o Furacão fez e como combinado deixaram na porta da casa de João.

Quando João chegou do trabalho viu que havia pilhas de sacos, alguns com dejetos do animal e outros com lixo. As moscas já em certa quantidade zuniam como se fossem abelhas.

- O que é isso? Porque tanto lixo e esse cheiro de fezes.... que horrível, vou levar uma semana para deixar tudo limpo e sem feder! Por que fizeram isso?

- Então, João, isso é o lixo que o seu cachorro espalhou pela rua e tudo o que ele fez de cocô nas nossas calçadas por esses dias. Como é só um cachorro, achamos que seria melhor você ficar com os presentes dele, afinal é seu animal de estimação– explicou Ana.

Após aquele dia, João não deixava mais o Furacão solto na rua durante o dia, a vizinhança ganhou em tranquilidade e ele não corria mais o risco encontrar um presente indesejável na porta.

 

 

 

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