Parece cansaço, mas é só preguiça existencial
É muito comum no cotidiano escutarmos que o dia foi puxado, a semana foi cansativa ou alguma outra frase remetendo à fadiga, e sempre me pergunto como é possível mensurar a percepção de cansaço.
Seria a variedade ou a intensidade das atividades a pesarem nesta balança?
Ora, se for pela multiplicidade de afazeres, seria impossível participar do famoso “sextou”, por ser mais uma coisa diferente a se fazer.
De outro modo, pensando na intensidade, é incoerente uma pessoa reclamar de cansaço por trabalhar de 5 a 8 horas por dia na frente de um computador e conseguir passar a madrugada maratonando série no final de semana.
Talvez haja uma outra dimensão ainda não explorada que permeie os vetores variedade e intensidade. Pensando nisso, é possível ver que em ambos os exemplos o indivíduo se adapta a uma nova situação.
Interessante que parece a adaptação ser como uma chave de mudança da percepção: de “cansado da semana” para “mas não para o sextou” e de “cansaço do trabalho” para “disponível para maratonar”.
Porém se se trata de uma chave, seria possível então fazer o caminho inverso. Assim, supõe-se que após uma atividade festiva, de descontração ou de lazer o indivíduo esteja descansado para desenvolver outras atividades. Mas o que você realmente escuta das pessoas no final do domingo ou início da semana?
Pode ser que a questão não seja a ausência de adaptação, mas um equívoco na conceituação de cansaço. Assemelha-se a algo que parece esgotamento, dá a sensação de não ter forças para agir, mas é território habitado pelo tédio: chegamos à dimensão da preguiça.
Mas não é a preguiça acusada por um chefe ou por um estômago cheio após um farto almoço. É algo que não está ligado a julgamentos morais ou fisiológicos, mas sim a própria existência.
Por exemplo, no ambiente profissional não é a atividade que cansa, mas a repetição automática dos afazeres e das relações interpessoais que afloram uma preguiça de lidar com o trabalho em si.
A volta do descanso do final de semana é uma adaptação fictícia, artificial, pois se existe a sensação de cansaço, pergunta-se: Quanto tempo ainda passa rolando o feed do Instagram? Quanto gasta assistindo vídeos do Youtube ou repassando mensagens pelo Whatsapp?
Pois bem, se o ato de viver deixa aparentemente cansado, porém esse esgotamento não acaba, então existe uma falta de capacidade adaptativa com as pressões do dia a dia. Assim, a preguiça existencial liga-se à perda de resiliência da própria vida real.
A renovação por meio do descanso é um ciclo de resiliência natural. Contudo viver na sociedade artificial exige o dispêndio de energia (já que você é um ser natural), provocando a sensação de que a alternância de atividades é uma adaptação aos diversos contextos.
É daí que vem o tédio atrelado ao esgotamento como o resultado da capacidade energética real usada em um ambiente de pseudo-realidade. Daí me pergunto: se tem quem troca, então há benefício para quem recebe.
Talvez a preguiça existencial seja a evolução de uma espécie de relação parasitária, agora o ser humano é um simbionte com a sociedade moderna: ganha likes em troca de sua energia vital.
Comentários
Postar um comentário