Coreografia das formigas
Amanhece. Os primeiros raios do Sol transpassam o orvalho nas folhas da grama e criam uma microprojeção suave da claridade ainda nascente.
Ali perto, um monte de terra cuidadosamente escavada circunda um buraco e logo se vê apontar daquele ponto escuro: duas antenas, uma cabeça, que em seguida se levanta sobre seis pequenas patas.
O tatear da formiga na terra ao entorno do buraco parece procurar os indícios de que já é hora de sair da toca e começar mais um ato do ciclo da vida.
Descendo o monturo úmido, faz contato com as pontas das folhas da grama, com um verde revivido pelo toque de frescor deixado na noite anterior.
As antenas e as duas pernas dianteiras são como sondas a detectar a possibilidade de dar mais um passo e assim mover-se na imensidão selvagem. É quase como se a formiga estivesse buscando confiança para avançar.
Assim como esta, outras começam a sair da toca, repetindo os movimentos da primeira.
Uma fila de formigas começa a se formar. Para quem observa por fora, o vai e vem é como uma marcha apressada por conta de tantas perninhas se movendo ao mesmo tempo.
Aproveitando o afago morno da manhã, o gato de pelagem de cor acinzentada nas costas e barriga branca observa com curiosidade, deitado elegantemente com as patas traseiras voltadas para trás e as da frente em posição de esfinge.
Aos poucos, assim como a luminosidade vai desvendando os tons de verde do gramado, os pequenos insetos vão se distinguindo entre si por pinças, abdômen e tamanho. A variedade dá movimento ao ambiente predominantemente monocromático.
Sem hesitação, cortam, carregam e até parecem organizar a fila. É como se aquela linha de formigas tivesse uma vida independente das minúsculas unidades que a formam.
Começa a escurecer, e na medida do avanço da noite, os insetos vão se recolhendo ao abrigo do buraco que agora já se camufla na penumbra, esperando o próximo raiar do dia para ser descoberto novamente.
As formigas já não intrigam mais o gato, que se levanta e sai para seguir suas atividades de felino. Talvez caçar algum animal por instinto ou simplesmente dormir em outro lugar.
Parece que o movimento das pequenas perninhas não é tão frenético quando visto dentro da sucessão de um ciclo, mas nem por isso deixou de ser intenso.
Dos cósmicos raios solares até o infinitamente pequeno mundo das formigas, a coreografia da natureza parece convergir para um só ponto: o presente.
A vida presente é um mecanismo de igualdade universal, assim como o Sol irradia, o gato observa e a formiga corta a grama, ela acontece e não leva em consideração o tamanho que você se dá dentro do universo.
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