Rodízio informacional: a mente empanturrada
Se você é brasileiro sabe que, de modo geral, ir em rodízio significa comer com a meta de que o dono do restaurante tenha prejuízo - nem que seja para sair passando mal de tanto que consumiu.
O rodízio se caracteriza por uma grande variedade de opções, que parecem intermináveis, junto a um serviço em que é impossível o prato ficar vazio e, mesmo que esteja com comida ainda descendo pela garganta, a necessidade de comer mais alguma coisa é insaciável.
Mas e se eu disser que nós agimos assim também quando o assunto é informação? Por acaso você já sentiu que em sua mente passam tantos pensamentos que sua atenção parece ficar pulando entre as ideias, mas sem se ater de forma profunda em qualquer delas?
Pois bem, eu começo pensando que hoje preciso escrever um artigo, ao mesmo tempo lembro que é dia de levar meu filho na natação. Por outro lado, o que será que vai ter de almoço hoje? Nossa, não vejo a hora de chegar em casa e assistir a continuação da minha série.
Não sou psicólogo, psiquiatra ou alguém da área para diagnosticar algum tipo de comportamento específico, mas, eu tenho capacidade de pensar e refletir e, ressalvados os casos clínicos, acredito que o excesso de informações traz esse tipo de vivência.
Rodízio no celular
Por um momento se atenha ao seu celular. Ele tem acesso a internet e aos mais variados aplicativos que permitem uma série de facilidades, por exemplo, eu posso saber o que acontece no mundo todo pelos sites de notícias, bem como não preciso pegar fila no banco para transferir o meu dinheiro.
Até este ponto nada demais, estamos acostumados a isso, a dinâmica da tecnologia e da sociedade atual nos permite estar conectados 24h por dia se quisermos bem como acessar quase qualquer coisa desde um clássico da literatura mundial até a mais escabrosa teoria da conspiração. Há inúmeras opções no rodízio informacional.
Contudo, embora a conectividade traga muitas facilidades para nossa vida cotidiana, a verdade é que ela torna o fluxo de informações até nós intenso demais, assim como o garçom que nunca deixa nosso prato vazio.
Veja como estão estruturadas as ofertas de informações. Por exemplo, em sites de notícias são chamadas curtas e com fotos que são capazes de transmitir uma mensagem fechada, a pessoa lê o título e recebe tal informação.
Preste atenção se você ao abrir um site apenas lê as manchetes e a linha fina e com isso conversa com os outros como se tivesse lido toda a reportagem. Você só experimentou aquilo e já parte para outro.
As mídias sociais funcionam de maneira semelhante, porém explorando a questão da necessidade de conexão humana, vídeos curtos, com ideias simples ou conteúdo somente de entretenimento ou curiosidade sobre a vida alheia dominam a enxurrada de informações que a pessoa está sujeita.
Note que não estamos falando da qualidade da informação, mas da quantidade que chega até nós de maneira muito simples, muitas vezes até sem esforço para buscar, pois os algoritmos já conhecem o nosso perfil, assim como garçom a este ponto já notou as nossas preferências culinárias.
Sobrecarga
Assim como no rodízio, consumir um volume grande o suficiente para sobrecarregar um sistema irá trazer consequências, enquanto a comida afeta a digestão e funções afins, as informações vão atuar, principalmente, na nossa mente.
A velocidade e quantidade de estímulos informacionais provocam a sensação de invasão dos sentidos e daí a sensação descrita no quarto parágrafo do pensamento pulando de uma ideia a outra, pois nossa mente se acostumou a ter uma infinidade de coisas para recepcionar e processar.
No entanto, a recepção e processamento é realizada de maneira superficial, pois assim como no rodízio, apenas experimentamos determinada ideia, visto que não há tempo para “saborear” a informação, porque logo em seguida já vem outra.
Perceba que assim como no restaurante, no mundo conectado é impossível consumir tudo o que há a disposição, é uma questão de volume e capacidade individual, sendo que esta última nunca irá ultrapassar a quantidade produzida por uma coletividade.
Dessa forma, assim como o estômago de um homem não consegue acabar com a comida de uma cozinha, a mente do ser humano não é feita para ser apenas um depósito de informações alheias.
Assim vamos propor uma prática, vá no relatório do seu celular e veja quanto tempo passou nas mídias sociais por dia. Não vou nem pedir para olhar o relatório de tempo do WhatsApp por enquanto,
Agora considere: uma pessoa comum leva cerca de um minuto para ler uma página de livro com cerca de 300 palavras. Divida o tempo gasto nas redes por esse número e veja: quantos livros teria lido em vez de ficar verificando a vida alheia?
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